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Pesquisa revela que 73% dos usuários de crack têm pelo menos um filho

O GLOBO

Prostituição para obter a droga leva à gravidez indesejada; mães muitas vezes perdem a guarda da criança

POR MARIANA SANCHES

Da última vez que Andrea Francisco viu o filho Pedro, de 4 anos, ele perguntou: ‘mãe, você me deu?’: usuária há mais de 10 anos, ela não cria seus dois filhos – Marcos Alves

SÃO PAULO – O choro e os soluços duraram meia hora até que Andrea Francisco, de 44 anos, pudesse nomear a dor: Pedro, de 4 anos. Excessivamente magra, Andrea guardava na manga da blusa o cachimbo que causou sua separação do menino de cachinhos loiros. Usuária de crack há mais de 10 anos, ela perdeu a guarda também da filha mais nova, que recém completou 1 ano. Inscrita há quatro meses no programa De Braços Abertos, da Prefeitura de São Paulo, Andrea nega que tenha submetido Pedro a maus tratos, embora admita ter morado em albergues públicos com o menino.

— Da última vez que o vi, ele me perguntou: “mãe, você me deu?”. Todos os dias eu choro por ele, não tenho vontade de me alimentar. A gente se culpa porque é usuário. Disse a ele que vou comprar uma casa para nós dois. Mas me afundo na minha angústia, na minha dor — conta, demonstrando certa confusão sobre o processo judicial que decidirá o futuro da criança.

São muitas as mães consumidas pela dor da ausência dos filhos nas ruas da Cracolândia, onde as pedrinhas amareladas, pivô de cisões familiares, têm sido comercializadas à luz do dia, no meio da via, por traficantes que sequer se escondem em tendas ou barracas. Uma pesquisa recém-divulgada pela Open Society Foundations sobre o programa De Braços Abertos, voltado para recuperar usuários de crack, mostrou que 73% deles têm pelo menos um filho e que 5% das mulheres estão grávidas. O resultado corrobora um levantamento feito pela Fiocruz em 2014 com usuários de crack de todo o país: dentre as mulheres, 46% relataram ter tido quatro ou mais gestações ao longo da vida. A gravidez costuma resultar da precariedade da vida dessas usuárias: quase metade delas morava na rua e mais da metade admitia trocar sexo por dinheiro cotidianamente. As relações, no entanto, eram desprotegidas para 70% das mulheres, o que resultava em filhos não planejados.

— Muitas dizem que não queriam ter as crianças e que sabem que, quando o bebê nascer, não vai passar nem duas horas com elas. É uma situação complicada: o Estado diz que a mãe não pode abortar e que tão logo a criança nasça, será tirada dela. As mulheres acabam tratadas como barrigas de aluguel: os filhos vão para o abrigo e elas são jogadas na rua outra vez — afirma a socióloga Emanuelle Santos, que pesquisa o tema na Universidade Humboldt, em Berlim.

 

CONDIÇÕES EXCLUDENTES

Juridicamente, a condição de mães usuárias de crack é muito delicada. Se por um lado é importante manter o vínculo com os filhos — o que pode ajudá-las a abandonar as drogas — por outro o poder público tem obrigação de garantir a segurança e o bem-estar das crianças. As duas condições — a de usuárias da droga e a de mães — podem ser excludentes. Mas algumas iniciativas que preconizam a redução de danos para a mulher, o acompanhamento profissional dela e do bebê e a reaproximação com a família têm evitado que essas crianças sejam imediatamente colocadas para adoção.

O Programa De Braços Abertos abriga hoje 32 crianças (sete delas com menos de 1 ano) junto a suas mães, em hotéis. Apesar das limitações — as mães beneficiárias enfrentam dificuldades para obter vagas em creche e muitas vezes não há nem um espaço onde elas possam aquecer a mamadeira das crianças nos alojamentos — a iniciativa procura ajudar na mediação da relação das mães usuárias com os filhos.

— Para o Estado, o melhor é que a mãe fique com o bebê. O crack estigmatiza as mães, mas é também uma droga perigosa. Uma pessoa que fuma uma ou duas pedras por semana pode passar a conseguir 30 na semana seguinte — conta a psiquiatra da Unicamp Karina Diniz, que trabalha com esse público.

Preocupados com a segurança de bebês nascidos em uma situação de risco, muitos hospitais separam mãe e filho e encaminham o caso à vara da infância e adolescência da região. Foi o que ocorreu com uma beneficiária do programa que conversou com O GLOBO, mas pediu para não ser identificada.

— Minha filha é a maior provação de Deus na minha vida — conta ela, desviando o rosto e levantando-se do sofá para dissimular o pranto.

Aos 29 anos, ela deu à luz recentemente e a bebê que não foi liberada da maternidade, na Santa Casa, depois que ficou claro para a equipe do hospital que a mãe estava envolvida com o crack e morava em um hotel do programa De Braços Abertos. Para a mulher, que diz não usar mais a droga, foi um choque.

— Eu não estava esperando isso, fiquei um mês sem poder vê-la, sem amamentar. Voltei a encontrá-la só agora. Ela está com refluxo, expliquei para as enfermeiras que é preciso fazê-la arrotar logo depois de mamar para evitar isso.

A mulher divide um quarto de hotel com outro filho, de 2 anos de idade. Conseguiu vaga na creche para o menino que, todos os dias, passeia com roupas limpas e novas, o cabelo penteado. Enquanto a criança está na escola, ela trabalha.

 

‘OLHA O ANJO’

Quando mãe e filho põem os pés na rua, alguém na massa de usuários de crack dá o alarme: “olha o anjo”. Cachimbos e pedras somem da vista para que o menino passe com seus carrinhos coloridos. Ela reconhece que esse não é um lugar para criança.

— Já pedi transferência para um hotel da prefeitura longe daqui, para que eu possa ficar com as crianças em paz — diz.

A Santa Casa informou que a equipe do hospital é treinada para detectar risco de vulnerabilidade e que não é função da equipe verificar o grau de dependência da mãe ou se ela teria condição de cuidar do filho. Já a Prefeitura de São Paulo comunicou em nota que “não é política do De Braços Abertos separar mães e filhos. A política da Prefeitura é acolher a família”. As mulheres têm clareza, no entanto, de que a permanência de seus filhos junto a elas depende do abandono do vício — um desafio que a usuária Andrea Francisco teme não vencer:

— Eu às vezes acho que Deus demora um pouquinho. Já fiz de tudo, botei vela, rezei, fui no culto. É a hora de Ele chegar junto, já que Ele me fez pequena assim.