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Cigarro com baixo teor de maconha vira sucesso e causa debate na Suíça

Jornal Folha de S. Paulo

Diogo Bercito/Folhapress

Maço de cigarro com maconha vendido na Suíça; país tem tolerância mais alta do que outros europeus

 

 

 

 

Por fora, o cigarro da marca suíça Heimat é trivial: cilíndrico, das dimensões de um dedo indicador, branco e com a bundinha marrom. Mas o aroma denuncia. A fumaça que sai dele, espiralada, remete a um matagal.

É um cigarro de maconha que pode ser comprado em supermercados em toda a Suíça por qualquer pessoa maior de 18 anos –uma pequena revolução que criou um intenso debate social em torno deste produto, lançado no último mês. É o primeiro desse tipo no mundo.

Os maços esgotam assim que chegam às prateleiras, e suíços podem fumar maconha como fumariam um cigarro comum, sem ter que recorrer a lojas especializadas.

A venda do Heimat é possível porque a Suíça descriminalizou em 2011 os produtos com menos de 1% de THC, a substância psicoativa da maconha, irrigando assim um mercado que agora beira os R$ 320 milhões anuais.

A tolerância é bastante mais alta do que a de outros países europeus –alguns deles só toleram 0,2%.O produto da Heimat tem 0,3%, mas ainda assim a quantidade é baixa: cada maço de 20 cigarros tem apenas quatro gramas de THC. São 80% de tabaco.

Com essas quatro gramas é, em tese, difícil de se inebriar. Alguns usuários, porém, relatam relaxamento e algum enevoamento depois de tragar a fumaça, e a empresa recomenda não dirigir depois de fumar o cigarro.

O cigarro da Heimat contém também 20% de CBD, outra substância presente na maconha, e que os cientistas acreditam ser capaz de aliviar dor e inflamações.

 

CHEIROSO

A empresa Heimat foi criada em 2016 por Björn Koch e seu irmão com a proposta de trabalhar apenas com tabaco suíço. Os maços só continham fumo, no começo, e só recentemente incluíram a maconha-suíça, também.

“Foi complicado no começo, e houve bastante discussão com as autoridades e os fornecedores”, diz à Folha.

Mas o produto se espalhou pelo país como fogo no mato seco: o Heimat é vendido pela gigante rede de supermercados Coop, presente mesmo em pequenos vilarejos na beirada dos lagos suíços.

Cada maço custa o equivalente a R$ 64, o dobro do valor da caixinha sem maconha, mas a produção de 12 mil maços por semana –lenta porque o maquinário da Heimat é de pequeno porte– esgota em poucos dias.

Alessandro Mosca, 24, vende o produto via internet na cidade de Ascona, próxima à fronteira italiana. Os 20 maços que conseguiu dos fornecedores foram comprados em só uma semana.

Ele próprio é um consumidor, e guardou um pacotinho consigo. “Algumas pessoas só gostam do sabor da maconha e não querem ficar doidonas”, diz à reportagem.

“Há uma alta procura por produtos de maconha devido a seu gosto e aroma”, diz Yvette Petillon, uma porta-voz do supermercado Coop. “Atualmente temos uma demanda maior que a oferta.”

Mathilde Missioneiro – 24.mar.2017/Folhapress
GENEBRA, SUÍÇA, 24.03.2017: MACONHA-LEGALIZAÇÃO - Produtos à base de cannabis à venda em loja de Genebra na Suíça. Após a legalização da maconha com teor de até 1% de THC (Tetra-hidrocanabino), o governo suíço enfrenta a comercialização em lojas e bancas especializadas em comidas e bebidas, sem condições de fazer a devida fiscalização quanto à regularidade da substância. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
Produtos à base de cannabis à venda em loja de Genebra, na Suíça

 

DEFUMADO

A venda dos cigarros de maconha, ao lado da crescente tolerância suíça a esses produtos, parece ser uma boa aposta à economia do país. Há expectativa de que até mesmo o turismo seja impactado –com visitantes somando os maços de Heimat aos chocolates sofisticados pelos quais a Suíça é conhecida.

No entanto, há também receio por parte das autoridades sanitárias de que o fácil acesso ao THC e ao CBD, outro componente da maconha, incentivem maiores taxas de fumo, misturando-se ao mercado mais amplo das drogas.

“Eles não querem que os jovens fumem, mas o produto é legal, com baixas porcentagens. Não tivemos problemas”, diz o produtor Koch.

Há relatos de que hotéis e restaurantes têm restringido o fumo de cigarros de maconha devido ao cheiro, que –apesar da legalidade– ainda desperta a curiosidade de outros clientes e da polícia.

Em Ticino, uma das regiões da Suíça onde a venda de maconha requer autorização especial, os maços da Heimat foram retiradas das prateleiras dos supermercados até segunda ordem das autoridades locais.

Países vizinhos como Alemanha e Áustria lembraram seus cidadãos mais entusiasmados de que é proibido cruzar a fronteira com eles.